Camera Mundo - Independent Film Festival - Edition Brasil

Camera Mundo interview

Incarcânu a Tiortina
Interview met Gabriel Lopes Pontes

“Een goed idee en een camera in de hand zijn nog steeds dé formule voor een goede film!”

Wie zegt dat een film een verhaal moet vertellen, of met acteurs gemaakt moet zijn? Als het aan de initiatiefnemers van de ‘Novocinemanovo’ ligt, is een goed idee en een camera in de hand nog steeds dé formule voor een goede film. Het doel van Gabriel Lopes Bridges, Tau Tourinho en Lucas Virgolino gaat verder dan de ‘Cinema Novo’, de stroming die in de Braziliaanse filmwereld in de jaren ’50 ontstond. Het faillissement van de grote filmstudio’s in Rio de Janeiro en Salvador in deze tijd, bracht jonge film makers tot het maken van films die de realiteit weerspiegelden, goedkoper waren en meer inhoud hadden.

De films van het Novocinemanovo collectief kunnen worden gezien als een ‘herontdekking’ van de idealen van Glauber Rocha, voortrekker van de Cinema Novo beweging. Cinema Novo stond voor spontaniteit en improvisatie door vrijwel totale afwezigheid van een script en het gebruik van een momentopname. Een andere pijler binnen de esthetiek van Cinema Novo is het gebruik van de ‘echte acteur’, dat wil zeggen, een acteur zonder enige beroepsopleiding die op groot doek de inherente situaties in zijn of haar leven vertegenwoordigt; een nabootser van zichzelf.

Met dit in het achterhoofd werd de eerste film van het collectief Novocinemanovo gemaakt, de in drama gezette korte documentaire ‘Incarcânu a Tiortina’ over de twee vrienden Túli en Lubisoni die in de constante roes van cachaça (suikerrietrum) dromen van hun eigen cachaça-brouwerij. De documentaire belicht verschillende scènes uit het dagelijks leven van de twee vrienden, zonder duidelijk verband, chronologische volgorde of technische hoogstandjes. “Ons doel was de standaard waarden van de traditionele documentaire te doorbreken en geen hoofdpersonen in te kaderen in vooraf besproken scènes. Wij wilden zien wat een stel dronkaards op straat te zeggen zou hebben en wilden alcoholisme laten zien van binnenuit de fles”, zegt Gabriel Lopes Bridges, één van de regisseurs.

Deze frisse duik in sterke drank onthult vernieuwende en ongebruikelijke perspectieven van het leven door de ogen van de dronkaards, doorgaans verafschuwd door de maatschappij. “Hun perspectief was gewoonweg anders, bijna existentialistisch te noemen, alsof ze wilden zeggen: je leeft maar één keer op aarde alvorens je er onder terecht komt, dus kan je er maar beter het beste van maken.” De twee personages uit de film ervaren dat onder de continue bedwelming van cachaça. “Ze leken zo gelukkig met hun ‘Modus Vivendi’ en zagen zich totaal niet als slachtoffers, wij dachten dat wij misschien wel degenen waren die hulp nodig hadden, met al onze Freuds, Jungs en Lacans”, verklaart Gabriel.

De film weerspiegelt de Braziliaanse realiteit en geeft een stem aan het gewone volk van Bahia. Het experimentele karakter van de film brengt veel gesprekstof teweeg. Volgens Gabriel “omdat de Braziliaanse documentaire-industrie een shocktherapie nodig had. De grote meerderheid van regisseurs is blijven hangen in de volledig verouderde vormen en procedures van de documentaire”.

In het kort is Incarcânu is Tiortina een sterke dosis van wat je van de nieuwe Braziliaanse onafhankelijke filmindustrie mag verwachten, één die je zeker geen kater zal opleveren!

Tekst: Gustavo Amaral

 

Incarcânu a Tiortina

“uma câmera na mão e uma ideia na cabeça ainda é a formula para um bom filme”

Quem disse que o cinema necessariamente tem que contar uma estória? Usar atores? Quem disse que o Cinema Novo de Glauber Rocha morreu? Muito pelo contrário, se depender dos integrantes do Novocinemanovo, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça ainda é a formula para um bom filme.

O objetivo de Gabriel Lopes Pontes, Tau Tourinho e Lucas Virgolino, autores do Manifesto do Novocinemanovo, vai além de resgatar a proposta que nasceu no Brasil na década de 50. Naquela época, jovens cineastas do Rio de Janeiro e da Bahia desapontados com a falência dos grandes estúdios, resolveram lutar pela produção de filmes com mais realidade, mais conteúdo e menor custo. Surgiu o Cinema Novo e Glauber Rocha seria seu grande protagonista.

O Novocinemanovo pode ser entendido como um desdobramento, e não uma releitura, dos ideais de Glauber, uma maneira de "levar às últimas conseqüências a proposta original do Cinema Novo" e conforme o Manifesto: "enfatizar ainda mais a espontaneidade e o improviso, através do roteiro (quase) inexistente e do argumento instantâneo."

Outro pilar muito interessante dentro da proposta estética do grupo é a utilização do “ator real”, ou seja, pessoas sem qualquer treinamento profissional que representam na tela situações inerentes às suas próprias vidas; um interprete de si mesmo. Isso tudo dentro de um contexto documental/ficcional, valorizando uma questão importante: “ao mostrar contextos reais, não deixa de estar realizando documentários, tampouco deixa de realizar filmes ficcionais ao amoldar esses contextos às conveniências de um discurso cinedramático, neles interferindo, através da criação proposital de cenas irreais”, ainda segundo o Manifesto.

Foram nessas circunstâncias que nasceu o primeiro filho do Novocinemanovo, o filme Incarcânu a Tiortina. O curta-metragem conta a estória de uma maneira não linear do cotidiano de Túli e Lubisôni, dois cachaceiros de uma cidade no interior da Bahia que dividem o sonho de serem donos de seu próprio alambique, dentro de casa.

Embora o filme esteja sendo utilizado de diversas formas por órgãos militares, escolas, igrejas e até pelos Alcoólatras Anônimos para alertar e prevenir sobre o risco do alcoolismo, o trabalho ultrapassa as barreiras da prevenção no tratamento do problema, e os cineastas admitem sua neutralidade quanto às escolhas e condutas dos atores reais. “A gente não quis fazer um filme denúncia, um filme preventivo, não quis dar nenhum alerta sobre os perigos do álcool, a gente só quis fugir da tendência do documentário tradicional de só enfocar figuras de projeção, e fomos ver o que o bêbado de rua tinha a dizer, quisemos ver o alcoolismo a partir do lado de dentro da garrafa”, relata Gabriel Lopes Pontes, um dos diretores.

Esse mergulho no universo da bebida revela uma diferente e inusitada perspectiva da vida através do olhar dos bêbados, um olhar que com mais freqüência do que não, é malvisto pela sociedade. “A ótica deles era outra, a visão da vida que eles tinham era bem terra-a-terra, quase existencialista, quer dizer: você tem um tempo sobre a terra antes de ficar sob a terra, e o negocio é gastar esse tempo da maneira que melhor agradar, no caso deles bebendo. Não dava pra vê-los como viciados, pessoas dignas de pena. Eles pareciam tão sintonizados com seu ‘modus vivendi etílico’, que nos fazia pensar se quem não precisava de ajuda éramos nós, com todos nossos Freuds, Jungs e Lacans”, explica Gabriel.

A importância de um filme como esse não se resume apenas na sensibilidade e transparência na forma de expressar a experiência de vida de dois cachaceiros, e de ser um resgate do cinema dos anos 50. Trata-se de um recorte da realidade brasileira e uma oportunidade de dar voz ao povo, nesse caso especificamente ao povo baiano.

O experimentalismo da obra coloca em discussão muitas produções “porque o cinema documental brasileiro está precisando de uma chacoalhada, a grande maioria dos trabalhos continua atracado a formas e procedimentos já completamente obsoletos”, completa Gabriel.

Em resumo Incarcându a Tiortina é uma forte dose do novo cinema experimental brasileiro que não deixa ressaca.

Texto: Gustavo Amaral