Camera Mundo - Independent Film Festival - Edition Brasil

Camera Mundo interview

Interview met Vânia Perazzo

“Wanneer je met een klein budget werkt komt creativiteit altijd op de eerste plaats”

De film “Por 30 Dinheiros”, gelanceerd in 2005, heeft een stempel gedrukt op de Braziliaanse onafhankelijke filmindustrie. Het is de eerste lange fictie die in 35 jaar gemaakt is in de Noordoostelijke staat Paraíba sinds de lancering van “Salário de Morte” van Linduarte Noronha in 1970. Geregisseerd door de Paraíbaiaanse Vânia Perazzo in samenwerking met de Bulgaarse Ivan Hlebarov, laat de film aan de hand van de geschiedenis van een klein reizend circus de culturele achtergrond en religieuze eigenaardigheden van het Noordoosten van Brazilië zien. Dit gebied wordt gezien als één van de meest mythische en conservatieve gebieden van Brazilië, waar de archaïsche tradities en de dilemma's van het stedelijke leven en het kapitalisme samensmelten.
In deze context speelt de film met de gedachte hoe de samenleving zal reageren op een globaliserende wereld. Gebruik makend van meerdere technieken en invalshoeken, mengen de regisseurs komedie en tragiek in een script van hilarische opeenvolgingen waarvoor Vânia Perazzo de Humberto Mauro prijs kreeg, een aanmoedigingsprijs van de vereniging voor Braziliaanse schrijvers in Rio de Janeiro.

De stempel van “Por 30 Dinheiros” is nog groter als we de moeilijk toegankelijke filmindustrie in Brazilië in ons achterhoofd houden. Gezien het overgrote deel van de Braziliaanse economie zich in het Zuidoosten concentreert, is het maken van onafhankelijke film buiten de Rio - São Paulo as een nóg grotere uitdaging. “Ik ontdekte dat, net als het probleem in Bulgarije de censuur van het totalitarisme is, het probleem in Brazilië het gebrek aan lobby en contacten is als het gaat om het verkrijgen van fondsen en middelen voor de productie van een film”, zegt Hlebarov, al meer dan 40 jaar regisseur van beroep en één van de makers van de “documentário de criação”, een genre dat de censuur doorbreekt met metaforen en allegorieën.
Het is niet voor niks dat “Por 30 Dinheiros” buiten fictie ook karaktereigenschappen van een documentaire bevat. Net als Hlebarov, heeft Vânia ook veel ervaring met de zogenaamde ‘realistische cinema’. Zo was ze scriptschrijver van onder andere de documentairereeks ‘Carnaval Sujo’ over het straatcarnaval in Paraíba, die internationale bekendheid genoot. “Wanneer je met een klein budget werkt komt creativiteit altijd op de eerste plaats”, aldus Vânia.

Tekst: Mônica Pupo

 

O Desafio da Ficção Nordestina
Entrevista com Vânia Perazzo e Ivan Hlebarov

Lançado em 2005, “Por 30 Dinheiros” representa um marco no cinema independente brasileiro. Trata-se do primeiro longa-metragem de ficção produzido na Paraíba em 35 anos – desde o lançamento de “Salário de Morte”, de Linduarte Noronha, em 1970. Dirigido pela paraibana Vânia Perazzo em parceria com o búlgaro Ivan Hlebarov, o filme parte da história de um pequeno circo mambembe para refletir sobre aspectos culturais da região Nordeste, considerada uma das mais místicas e conservadoras do Brasil, onde tradições arcaicas convivem com os dilemas da vida urbana e do capitalismo. É neste contexto que a obra propõe uma metáfora da sociedade globalizada.

Desdobrando-se em mais de uma função, os cineastas uniram comédia e drama em um roteiro repleto de seqüências hilárias, que conquistou o prêmio “Humberto Mauro”, concedido pela União de Escritores do Brasil. A importância de “Por 30 Dinheiros” é ainda maior se considerarmos a realidade da indústria cinematográfica do Brasil. Com grande parte da economia concentrada na região Sudeste, fazer cinema fora do eixo Rio-São Paulo é um desafio ainda maior. “Descobri que, se na Bulgária o problema era a censura do totalitarismo, no Brasil o problema é a falta de lobby e contatos para ajudar na captação de recursos”, reflete Hlebarov, cineasta que possui mais de 40 anos de profissão e um dos criadores do “documentário de criação”, gênero que se propunha a driblar a censura através de metáforas e alegorias.

Não é à toa que, embora se trate de ficção, “Por 30 Dinheiros” sugere uma estética documental. Assim como Hlebarov, Vânia também possui experiência no chamado “cinema direto”. Ela é autora, entre outros, de “Carnaval Sujo”, documentário sobre o carnaval de rua paraibano, que foi destaque internacional. “Quando se trabalha com baixo orçamento, a criatividade sempre está em primeiro lugar”, diz Vânia.

Na entrevista a seguir, os diretores de “Por 30 Dinheiros” falam mais sobre a carreira, o desafio de fazer cinema no Brasil e os projetos futuros.

Como vocês iniciaram a carreira de cineastas?

Vânia: Cheguei ao cinema através de um intercâmbio entre a Universidade Federal da Paraíba e o Ministério de Relação Exteriores de França. Monitores da Association Varan de Paris vieram para promover estágios em Cinema Direto (da Escola de Jean Rouch). Realizei um documentário em Super-8 – “É Romão pra cá, é Romão pracolá”- sobre um tocador de berimbau muito ingênuo que morava na área rural. Daí, fui escolhida para o estágio em Paris – onde realizei “Celso depois do Milagre” – sobre o economista paraibano Celso Furtado, auto-exilado em Paris. Em seguida, D.E.A. (mais ou menos equivalente ao mestrado) na Sorbonne e Doutorado em Paris X-Nanterre, com Jean Rouch.

Ivan: Minha estrada é longa, tenho mais de 40 anos de cinema e sou formado em Jornalismo. No cinema exerci várias funções: técnico de som, assistente de câmera, assistente de direção, roteirista, etc. Como jornalista, fui crítico de cinema em revistas, jornais e Rádio Nacional, de Sófia. Como roteirista do documentário “Pastoral”, fui um dos criadores de um novo estilo de cinema documentário na época do totalitarismo na Bulgária, driblando a censura através de metáforas e alegorias, permitindo várias leituras da obra. Esse estilo, mais tarde, recebeu o nome de documentário de criação, na França. Esse filme fez grande sucesso na década de 80, conquistando oito prêmios internacionais (França, Alemanha, Grécia e Turquia) e dois, nacionais. Desde então, é considerado uma obra prima do documentário da Bulgária.

Como foi o desafio de rodar um longa-metragem de ficção no Nordeste do Brasil?

Vânia: o “Por 30 Dinheiros” foi uma lição muito dura a respeito de captação de recursos. O problema é que os recursos estão, sobretudo, no sudeste-sul do país.

Ivan: Foi meu primeiro longa como diretor e produtor. Descobri que, se na Bulgária o problema era a censura do totalitarismo, aqui no Brasil, o problema era a falta de lobby e amizades verdadeiras para captação de recursos.

O que é mais difícil para um cineasta independente no Brasil: produzir ou distribuir.

Vânia: Distribuir.

Ivan: Distribuir.

Que medidas poderiam ser adotadas para facilitar a produção de cinema no Brasil?

Vânia: parceria com redes de TV.

Ivan: Com fundos e não com renúncia fiscal, devendo haver uma partilha mais justa entre as regiões do país, além de uma legislação mais moderna no que se refere à exibição no circuito comercial e televisão (vide exemplo da França).

Estão trabalhando em algum filme no momento?

Vânia: São vários projetos. No momento, priorizamos um documentário sobre a relação do imaginário infantil e a história de uma cidade do sertão da Paraíba; o outro trata de um grande escritor búlgaro que viveu em Minas, nos anos trinta.

Ivan: Todo dia nasce ideia de um novo filme, mas com o tempo o meu superego descarta a possibilidade da realização porque tanto no documentário como na ficção, não é toda ideia que pode ser transformada em filme... No momento atual, estou trabalhando com Vânia nos dois projetos citados. Os outros, são segredo.

Texto: Mônica Pupo